O PAPEL DA AFETIVIDADE NA APRENDIZAGEM

Para que haja aprendizagem é preciso levar em consideração dois fatores essenciais: a afetividade e a memória. É certo que guardamos com mais facilidade em nossa memória eventos que tenham marcado afetivamente as nossas vidas, seja de forma positiva ou negativa.

Nesse sentido, é possível compreender porque é mais fácil lembrar o que foi servido em um jantar de uma festa de aniversário muito divertida que ocorreu há dez anos do que aquilo que comemos no jantar de um dia qualquer da semana passada.

Da mesma forma, uma perda significativa pode ser um marco na memória em função da emoção associada ao evento. Uma pessoa que tenha sofrido muito em função da perda de algum parente em um determinado lugar pode se sentir muito mal apenas ouvindo o nome deste lugar.

No mundo atual muitas pessoas sofrem de diversos males psicológicos em função de associações entre uma emoção negativa e um evento. O cérebro aprende por associação. A cada novo evento há uma busca rápida no cérebro pelas similaridades de ocorrências anteriores. Se o resultado da busca estiver relacionado a um sentimento ruim, a tendência é que a pessoa tente uma resposta ou comportamento que evite sentir o que ela já sabe que é ruim.

Um adulto pode compreender bem este processo, mas uma criança que ainda não sabe nominar suas emoções nem avaliar o que está sentindo, pode ter muita dificuldade de encontrar comportamentos funcionais diante do que está sentindo.

Os processos de aprendizagem passam pela afetividade. Ninguém gosta de lidar com um estímulo, com novas possibilidades de conhecimento, com dor e sofrimento. A punição, então, não é a melhor forma de fazer alguém aprender, mas sim o reforço.

Um dos estudiosos de como a aprendizagem ocorre, Skinner (2003) afirma que o reforço positivo é uma técnica muito eficaz para que a aprendizagem ocorra, enquanto a punição pode trazer consequências, como comportamento de fuga, de evitação e ansiedade.

Na vida familiar é fácil compreendermos o papel do reforço positivo quando uma mãe oferece algum incentivo para que seu filho tome banho na hora certa, como um lanche diferente ou uma brincadeira, por exemplo.  O elogio também é um excelente reforço positivo.

Skinner (2003, p. 201) define reforço positivo como: “…qualquer estímulo que, quando apresentado, aumenta a frequência do comportamento”. Ou seja, um reforço é uma recompensa que visa fazer com que um indivíduo se comporte mais de uma determinada forma.

Já a punição consiste no processo de oferecer um estímulo visando a diminuição de um determinado comportamento, ou seja, castigar: bater, gritar, etc. A punição é uma poderosa forma de controle social, mas nem sempre a ela é administrada por uma outra pessoa. A aprendizagem também ocorre quando uma pessoa tem um comportamento e a consequência deste comportamento é indesejada, o que também promove a evitação do mesmo. Vejamos os exemplos de Skinner (2003, p. 202):

A criança que se queima é punida pela chama. Comer alimento inadequado é punido por indigestão. […] Um vendedor chegou a uma casa, pressionou a campainha, houve uma explosão nos fundos da casa. Aconteceu apenas uma contingência acidental e muito rara: houve vazamento de gás na cozinha e a explosão foi ocasionada pelas faíscas da campainha elétrica.

Se atentarmos para as possibilidades de comportamento em função da situação do vendedor citada acima, veremos que o evento associado à emoção do momento fará com que ele tenha respostas futuras de fuga, evitação ou ansiedade diante da possibilidade de passar por algo semelhante. Se o vendedor não conseguir criar estratégias para lidar com o evento, o medo pode se tornar uma fobia de campainhas.

Em estudos feitos com ratos de laboratório, Skinner descobriu que os efeitos da punição podem ser traiçoeiros. Quando choques elétricos eram ministrados incondicionalmente sem qualquer critério para sua suspensão, o rato ficava quieto em um canto o tempo todo, já esperando levar o choque, sem tentar nenhum tipo de comportamento para evitá-lo. A isso denominou-se desamparo aprendido: a certeza de que nada pode alterar um evento ou estímulo.

Ao trazermos esse exemplo para o modo como os indivíduos se comportam, podemos inferir que por trás de qualquer comportamento há uma experiência anterior que levou a pessoa a agir de determinada forma. Uma criança que seja violentada, agredida ou abusada constantemente, poderá criar estratégias para lidar com o sofrimento, se comportando de determinadas formas que ao modo de ver da sociedade são disfuncionais ou erradas.

O afeto positivo e o prazer facilitam o aprendizado. Na infância a criança aprende através dos jogos, da brincadeira, do lúdico e isso promove conexões para a vida toda e que serão as bases de futuros aprendizados e conexões. Quando uma tarefa é divertida, o indivíduo tem motivação e desejo para aprender e se lançar em um novo desafio. E o contrário também é verdadeiro: quando o estímulo dado é desinteressante, considerado chato, perigoso ou difícil, a tendência é que a criança desista diante do desafio e vá fazer outra coisa que goste.

Os pais e educadores precisam estar atentos a esses processos e buscar modos criativos para que o processo de aprendizagem ocorra de forma saudável.  Uma criança que é estimulada de forma criativa, divertida e com afeto positivo, tenderá a enfrentar melhor os desafios e a ter respostas mais funcionais diante dos problemas que forem se apresentando, pois suas bases de aprendizagem são sólidas.

Então, o que pode prejudicar a obtenção de um novo conhecimento?

  • Cobranças excessivas
  • Estímulos apresentados com agressividade
  • Impaciência diante do tempo de resposta da criança/adolescente
  • Punições recorrentes
  • Apresentação de algo novo de modo que gere desmotivação ou irritação.
  • Associar o aprendizado com emoções de tristeza, raiva, medo, nojo.
  • Desvalorizar a capacidade da criança diante do estímulo desafiador.
  • Dentre outros.

Quando a aprendizagem ocorre de forma adequada, há uma sensação de capacidade, de força, o que fortalece o autoconceito positivo, umas das bases para o desenvolvimento de novas habilidades.

(Trecho retirado do livro Psicopedagogia Institucional. Wak Editora – www.wakeditora.com.br)

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