OS ESTUDOS DE VIGOTSKY

Os estudos de Vigotsky tratam da dimensão social do desenvolvimento humano e um de seus pressupostos básicos consiste na ideia de que o ser humano constitui-se como tal na relação com o outro social. Dessa forma, a cultura está intrinsecamente relacionada com a evolução do homem nela inserido. Este teórico tinha um interesse especial pelas funções psicológicas superiores que se constroem na relação do homem com o meio.

Essas funções psíquicas superiores constituem-se em atenção voluntária, percepção, memória lógica, formação de conceitos, julgamento e pensamento, estando diretamente relacionadas ao comportamento consciente do homem. Para Vigotsky, o ser humano não é passivo diante do meio, mas é um ser que atua sobre o meio, que é ativo nas relações sociais, transformando a realidade.

O cérebro nessa concepção deve ser considerado como um sistema aberto, com plasticidade, cujo as estruturas são desenvolvidas ao longo da trajetória de evolução individual. É a partir da plasticidade que o cérebro pode servir às novas funções, reagindo a estímulos e permitindo novas estratégias de acordo com as necessidades do desenvolvimento humano.

Dessa forma, o cérebro deve ser apreendido como um sistema funcional no qual as funções mentais são organizadas a partir da articulação de diversos elementos e estruturas.

 

Uma pessoa pode responder corretamente quanto é 15-7, por exemplo, contando nos dedos, fazendo um cálculo mental, usando uma máquina de calcular, fazendo a operação com lápis e papel ou simplesmente lembrando-se de uma informação já armazenada anteriormente em sua memória. É fácil imaginar como cada uma dessas rotas para a solução de um mesmo problema mobilizará diferentes partes de seu aparato cognitivo e, portanto, de seu funcionamento cerebral. (OLIVEIRA, 1993 in LA TAILLE, 1992, p. 25)

 

Vigotsky

Vigotsky valoriza a ligação entre os processos psicológicos humanos e a relação do indivíduo inserido em um determinado contexto socio-histórico e cultural. O desenvolvimento cognitivo ocorre através de fases que envolvem diferentes processos mentais, desde os mais elementares na infância até os mais complexos na vida adulta (La Taille, 1992).

Um desses processos mentais é a formação de conceitos que tem início na infância e evolui até a fase da adolescência, sendo um processo mediado por signos adquiridos a partir da relação com o meio e da linguagem de uma determinada cultura. Pensamento e linguagem, então, estão intimamente relacionados e se desenvolvem em um processo de internalização das relações do indivíduo com a família, a escola, a cultura da qual faz parte e consigo mesmo.

Para que o homem internalize conceitos é preciso representá-los, o que ocorre sob a influência de um contexto sociocultural. Aqui podemos introduzir a ideia de mediação proposta por Vigotsky: o acesso aos objetos se dá através da mediação, ou seja, “através dos recortes do real operados pelos sistemas simbólicos de que dispõe” (LA TAILLE, 1992, p. 26).

O conceito de mediação inclui dois aspectos complementares:

  • Representação mental – operação mental sobre o mundo que supõe um conteúdo mental de natureza simbólica.
  • Origem social dos sistemas simbólicos – a representação da realidade, através dos sistemas simbólicos, ocorre a partir de uma dada cultura que fornece esses sistemas.

 

O ser humano se relaciona com o meio em que vive e internaliza modos de se comportar, de se vestir, de falar, de se relacionar com seus pares, de desempenhar determinadas atividades, introjetando regras e desenvolvendo um mundo intrapsíquico.

A linguagem desempenha papel primordial na teoria de Vigotsky, caracterizando-se como o sistema simbólico que dá vida à mediação entre sujeito e o objeto. Esta tem duas funções básicas:

 

  • Intercâmbio social – serve ao propósito da interação e comunicação entre indivíduos para as mais diversas finalidades.
  • Pensamento generalizante -generalização da experiência de modo simplificado através da categorização de conceitos (exemplo: animal – cachorro – poodle)

 

Os conceitos existem a partir do mundo real, que dá base para suas construções e para a possível abstração de seus usos. Vigotsky propôs um percurso genético para o desenvolvimento, não linear, do pensamento conceitual:

  • Formação de conjuntos sincréticos – a criança agrupa objetos com conexões subjetivas e baseadas em fatores perceptivos, como por exemplo, a proximidade espacial.
  • Pensamento por complexos – o indivíduo agrupa determinados componentes a partir de ligações concretas e factuais, não levando em consideração conexões abstratas e lógicas, exigindo a ligação entre objetos de acordo com sua similaridade.
  • Único atributo – o indivíduo é capaz de abstrair propriedades isoladas da experiência concreta, reunindo objetos com base em um único atributo.

 

A criança interage com os atributos presentes nos elementos do mundo real, sendo essa interação direcionada pelas palavras que designam categorias culturalmente organizadas. A linguagem, internalizada, passa a representar essas categorias e a funcionar como instrumento de organização do conhecimento. (LA TAILLE, 1992, p. 31)

 

O conhecimento passa por etapas de categorização e internalização conforme a inserção em uma dada cultura. Vigotsky distingue os conceitos em científicos e espontâneos. Os primeiros estão relacionados às situações formais de ensino-aprendizagem, enquanto os segundos estão relacionados ao cotidiano, impregnado pela experiência.

Um dos postulados básicos deste teórico é que a aprendizagem é fundamental para o desenvolvimento desde o nascimento da criança. E é a partir deste postulado que o conceito de zona do desenvolvimento proximal pode ser esclarecido: diferença entre o que o indivíduo já sabe e o que ainda não sabe, mas está perto de saber com a ajuda de alguém.

Faz-se, assim, uma distinção entre o desenvolvimento real (retrospectivo) que faz referência ao que já foi aprendido e que o indivíduo consegue realizar sozinho e o desenvolvimento proximal (prospectivo) que refere-se ao que está prestes a ser aprendido com o devido suporte.

Trecho retirado do livro: Psicopedagogia Institucional – Guia teórico e prático. Wak Editora – www.wakeditora.com.br)

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