SONHOS DE ESTIMULAÇÃO EXÓGENA

SONHOS DE ESTIMULAÇÃO EXÓGENA DURANTE O SONO 

                Um clássico deste perfil de sonho é o famoso Maury guilhotinado que já foi alvo de muitos debates ao longo da história da análise dos sonhos. Veremos ele, por completo, no capitulo de livro que trata de exemplo de análise de sonhos. Aqui vale apenas a citação: Maury sonha com a Revolução Francesa, neste ambiente ele discute com Marat e Robespierre e, acusado de traição é levado para a guilhotina. Quando, em seu sonho, a lâmina cai sobre sua cabeça, ele desperta atingido por uma peça da cama que caiu naquele mesmo instante, no pescoço.

                Neste caso o sonho incorporou o estímulo externo (sonhos de estimulação exógena) da queda do objeto no pescoço e construiu um enredo com segura continuidade. Aqui temos um problema temporal: ele já estava sonhando com um cenário propício a uma guilhotina –  revolução francesa – como o final – queda do objeto no pescoço– pode ter influenciado o tema desde o início do sonho? São duas teorias:

1)      O final se ajustou ao sonho em curso. Ou seja, ele já estava sonhando com a Revolução Francesa e, no instante que recebe o impacto no pescoço do objeto que caiu da cama, o sonho incorpora o evento com a possibilidade mais próxima à realidade do seu conteúdo: Revolução Francesa + impacto no pescoço = guilhotina! Tudo muito rápido!

2)      Não houve sonho nenhum sobre Revolução Francesa. Quando sofreu o impacto no pescoço e desperta, a mente cria, neste momento de devaneio (não estando totalmente consciente) o enredo completo. Devido ao estado de devaneio a mente interpreta como um sonho que já estava ocorrendo durante o sono.

sonhos de estimulação exógena
sonhos de estimulação exógena

Certo é que este tipo de evento acontece muito em nossas vidas.

Quando um cão late na rua e você desperta se lembrando de um sonho onde realmente tinha um cachorro latindo; O despertador tocando pela manhã pode fazer ser incorporado aos sonhos e qualquer outro evento, estímulo externo, que, ao nos despertar parece uma continuidade do sonho que estávamos tendo.

                Muitos estudiosos afirmam que  isto é uma tentativa do sistema manter o sujeito sonhador dormindo. Ao incorporar os sinais externos ao conteúdo onírico o sujeito não sofre nenhum impacto de surpresa e pode dar sequência ao ato de dormir. Então o sonho existe para que possamos dormir? Esta é uma grande possibilidade para este formato de sonho.

                Da mesma forma estímulos internos como: necessidades fisiológicas, alteração da pressão arterial, episódios de apnéia ou sensações térmicas podem ser assimilados pelo sistema onírico e colocados como enredo no teatro dos sonhos. Sonhar que está indo ao toalete pode estar refletindo o estado de necessidade fisiológica daquele momento ou, sonhar que esta voando acima das nuvens congelantes, pode estar relacionado a uma janela aberta por onde entra um vento muito frio. Sonhos assim não possuem uma carga simbólica que possa ter uma aprofundada interpretação; são, de fato, sonhos ordinários.

SONHOS DE ESTIMULAÇÃO EXÓGENA DESPERTO

                Não poderia ser considerado um sonho de fato, pois não ocorre durante o sono. Diante de um estímulo no estado vigil, durante o dia em seus afazeres normais, o sujeito recobra a memória de um sonho, com detalhes, sobre o mesmo tema e elenca uma possibilidade de premonição: “ – Já vi isso em meus sonhos!”  Na verdade este sonho não ocorreu durante o sono, lacunas de devaneios ou momentos de distração da consciência abrem espaços na estrutura da memória que podem ser preenchidas, em milésimos de segundos,  com enredos ligados a estes estímulos percebidos no momento. Como um Déjà vu, a sensação de já ter visto isto acontecer antes. Neste caso a situação presente cria um reflexo na consciência e, o cérebro, numa tentativa de entender o que se passa, evoca a lembrança de um sonho como explicação mais aceitável.

                Para exemplificar, vamos a um sonho relato por Freud: Sonho da Rua de Viena.

       

“A Sra. B., uma mulher respeitável que, além disso, possui senso crítico, contou-me, a propósito de outra coisa e sem nenhuma segunda intenção, que um dia, alguns anos atrás, havia sonhado encontrar o Dr. K., um amigo e antigo médico da família, na Kärntnerstrasse, em frente à loja de Hiess. Na manhã seguinte, ao caminhar pela mesma rua, encontrara de fato a pessoa em questão, exatamente no lugar com que havia sonhado. Basta isso para meu tema. Acrescento apenas que nenhum acontecimento subsequente comprovou a importância dessa miraculosa coincidência, que, portanto, não pode ser explicada pelo que estaria reservado no futuro.”

            (A Interpretação de Sonhos – Sigmund Freud)

                 O próprio Freud relata que ela não tinha nenhuma lembrança deste sonho até encontrar o Dr. K., só neste momento o sonho veio a mente e ela ficou convencida que havia sonhado com este encontro no exato e preciso lugar. Então os autores divergem quanto à explicação deste fenômeno, uns acreditam que ela tenha mesmo sonhado na noite anterior e outros apostam que um estímulo brusco, quando o sujeito se encontra em um lapso de devaneio, pode criar um sonho diurno que é relatado pelo sujeito como sendo uma lembrança de sonhos tidos durante a noite passada ou mesmo anteriores.

ENTENDA OS SONHOS DE ESTIMULAÇÃO EXÓGENA

                Fato é que o devaneio, estado em que temos pequenas ausências durante o dia, pode ocasionar outras percepções ou ausências delas. Como, por exemplo, uma pessoa dirige e não percebe por onde passou (mas não cometeu nenhum deslize durante o trajeto), ou em meio a uma conversa se perde por alguns segundos e não sabe o tema que estava sendo abordado. São pequenos lapsos e, na maioria das vezes, não causam nenhum problema maior. No entanto, eles são mais comuns em pessoas que têm dificuldade para dormir, não se lembram dos sonhos noturnos e/ou estão sob estado de tensão ou estresse. O resultado pode ser danoso se este sujeito opera máquinas de precisão, trabalha em funções repetitivas ou, podemos inferir, conduz veículos de transportes por muito tempo, horas seguidas.

                Sempre quando ocorre um acidente ouvimos os envolvidos dizerem que não viram o outro vindo em sua direção! Podemos supor que, naquele dado instante, o sujeito se encontrava em estado de devaneio em meio a um sonho diurno. O sistema mantém os comandos principais do corpo em movimento, mas, deve ficar lentificado para interpretação de sinais repentinos. Provavelmente os atropelamentos, batidas de carros e similares devem ocorrer por conta de súbita falha no aparelhamento da consciência. Ainda existe muita especulação e nada devidamente comprovado, por isso, para evitar problemas neste âmbito, durma mais e sonhe bastante durante o sono.

                Essa teoria liquida com ideia do sonho premonitório, pelo menos aqueles que a pessoa evoca no momento em que o fato ocorre. Não queremos, contudo, dizer que tais sonhos não existam e, para isso, existe uma provável explicação em termos junguianos: o inconsciente coletivo. No entanto isto é tema para outro texto, bons sonhos de estimulação exógena.

Trecho do livro: “A Importância dos Sonhos: interpretação e práticas para a saúde plena” de João Oliveira e Beatriz Acampora pela editora WAK.

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